Lede: vereis o nome engrandecido

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Lede: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor supremo
E julgareis qual é mais excelente
se ser do mundo rei,  ou professor desta gente.
Camões, mais ou menos….

No passado dia catorze de maio, três turmas do ensino básico da escola da Cooperativa deslocaram-se ao auditório da escola secundária e assim se deu por concluída a parceria estabelecida entre os alunos do 12.º ano, das turmas A e B, e a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e em risco de Campo Maior, desenvolvida ao longo do ano letivo de 2014-2015. Antes, tinham sido visitadas dezassete turmas, em cinco escolas diferentes.

Como dizia Pessoa, todo o começo é involuntário, e esta colaboração também teve uma génese curiosa. No final do ano letivo de 2013-2014, o aluno Nuno Costa apresentou oralmente um trabalho que mostrava as duas faces do bullying, o ponto de vista do agressor e o ponto de vista da vítima. A docente da turma, a professora Alexandra Lopes, reconheceu no trabalho manifesta qualidade e pertinência, de forma que sugeriu que este fosse disponibilizado à CPCJ, comunicando para o efeito com a professora Jesus Garcia.

Feito o primeiro contacto, no início deste ano letivo, os alunos foram convidados a canalizar voluntariamente as suas apresentações formais (necessárias à avaliação da oralidade na disciplina de Português) para o usufruto da comunidade. Assim surgiram trabalhos de pesquisa, auxiliados por apresentações visuais em powerpoint ou em prezzi, que tiveram como objetivo não só a obtenção de uma classificação, como é costume, mas, principalmente, o serviço ao próximo.

Durante os meses seguintes, acompanhados pelas professoras já mencionadas, os alunos disponibilizaram o seu tempo livre para se dirigirem às escolas, em grupos de quatro ou cinco, e entraram nas salas de aula do primeiro e segundo ciclos. Os jovens mais velhos foram junto dos mais novos para lhes mostrarem que se preocupavam com eles.

Alguns abordaram o tema do bullying, evidenciando as causas emocionais que levam uns seres humanos a agredir outros, escutaram o que se passava nas escolas e encorajaram à tolerância. Outros mostraram aos mais pequenos o flagelo do trabalho infantil no mundo atual e comprovaram o privilégio de aprender num ambiente amistoso. Outros incentivaram à prática do desporto para o desenvolvimento de competências sociais e para a autogestão da agressividade. Outros mostraram formas salutares e seguras de navegar na internet. Outros falaram com frontalidade e elevação sobre a sexualidade. Outros mostraram que a amizade é a ferramenta mais eficaz para a manutenção da saúde mental. Outros desfizeram os preconceitos sociais, mostrando que somos todos iguais e dignos. Outros desvendaram a moral escondida nas histórias infantis e revelaram os ensinamentos que estas fazem ecoar ao longo da nossa vida. Outros plantaram as sementes da paridade de género que nos permitirá, um dia, viver numa sociedade mais feliz e mais justa.

Acolhidos com grande simpatia e hospitalidade nas escolas da Fonte Nova, da Cooperativa, do Bairro Novo, da Avenida ou de São João Batista, os alunos encontraram muitas vezes falta de condições materiais. Em algumas salas não havia computador, nem acesso à internet, nem videoprojetor, nem colunas… Tudo se levava, tudo se arranjava.

No balanço final, verificou-se que todos ficaram a ganhar nestas épicas viagens. Os alunos mais velhos reconheceram a dificuldade de tomar a palavra em público, perceberam a subtileza exigida na gestão do diálogo, e, acima de tudo, consideraram que o seu trabalho escolar tinha mesmo valido a pena. Os mais pequenos mostraram curiosidade, entusiasmo, vontade de partilhar. Entenderam que os mais crescidos se preocupavam e os consideravam muito importantes. Até ganharam coragem para interpelar os grandes na rua: eu conheço-te, foste à minha sala! Os mais velhos experimentaram na pele a difícil missão dos professores e serão, provavelmente, encarregados de educação mais conscientes. Os mais novos aprenderam muitas coisas e levaram situações engraçadas para relatar em casa.

Em quem assistiu a esta colaboração fica a ideia de que a chave do ensino é dar poder e autonomia aos alunos, para que eles possam revelar o seu empenho, a sua inteligência, a sua dedicação, em suma, o seu valor. Para que conste, virtutibus juveniorum ut sit omnibus documento, às virtudes dos mais jovens para que sirva a todos de ensinamento, aqui ficam os nomes de todos os alunos participantes: Alexandra Centeno, Alexandre Gaita, Alexandre Arriaga, Ana Margarida Vieira, Ana Margarida Murcela, Ana Sofia Martins, Bárbara Carvalho, Catarina Cabeções, Catarina Gaita, Cláudia Gaminha, Duarte Vivas, Francisco Cordeiro, Inês Miranda, Joana Martins, João Carlos, João Nini, Laura Orelhas, Luís Nora, Lydia Marchã, Mafalda Sachim, Maria Margarida Carneira, Marisa Martins, Miguel Carrapato, Nuno Costa, Tiago Araújo, Ana Cabaço, Ana Santos, Catarina Toscano, Jacinta Tavares, Joana Fernandes, João Costa, Laura Massano, Maria Aldeiano, Patrícia Trindade, Rita Antunes, Rosário Carrilho, Teresa Lopes, Xavier Gonçalves.

Num tempo de descrença na escola, nos alunos, nos professores; num tempo em que todos se acusam de comodismo e de incapacidade; num tempo em que se trabalha mais para a excelência do que para os outros; é importante deixar um testemunho porque, se assistissem a estas muitas horas de trabalho entusiástico e voluntário, as pessoas falariam tão-somente de gratidão e de orgulho.

Texto da responsabilidade das professoras envolvidas na parceria: Alexandra Lopes e Jesus Garcia.